quarta-feira, 13 de abril de 2011

Émile Durkheim e a Sociologia da Família

Síntese do Conteúdo

O artigo “Émile Durkheim e a Sociologia da Família” refere “as ideias de Durkheim sobre a Sociologia da família mediante a apresentação da sua abordagem metodológica para o estudo da família e a sua opinião sobre as disfunções do divórcio, em especial o divórcio por mútuo acordo”. Sendo um tema pouco analisado, torna-se ainda mais importante conhecer o pensamento deste filósofo que dedicou grande parte da sua carreira profissional a este assunto.

Comentário crítico

Para fazer uma análise da família, tentou descrever os elementos da organização familiar (relações entre pessoas e bens, entre as pessoas - pais, filhos e parentes próximos / consanguíneos); ele incluiu também o Estado como um elemento exterior que se mistura à vida doméstica e torna-se um factor importante dela, uma vez que “a autoridade, para Durkheim, tinha um significado metodológico” (Nisbet). A partir destes elementos, Durkheim propôs um Quadro de Organização Familiar (anexo 1) que serviu de base à sua análise.

Durkheim considerava a família como uma parte da estrutura social e uma das mais importantes instituições sociais. “A instituição social, sendo um mecanismo de protecção da sociedade, feito por um conjunto de regras e de procedimentos socialmente uniformizados, reconhecidos, aceites e sancionados pela sociedade, importante para manter a organização do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos que dele participam, era, tal como outras instituições, conservadora e, por isso, contra as mudanças e pela manutenção da ordem”.

Durkheim defendia a superioridade da sociedade sobre o indivíduo e, de igual modo, do Estado sobre a instituição da família. “O ser humano precisa de se sentir seguro; uma sociedade sem regras claras e sem valores pode levá-lo ao desespero” e até ao suicídio. Ao defender que as normas sociais não podiam ser modificadas ao sabor das circunstâncias, defendia igualmente que a estabilidade da instituição do casamento era mais importante que os desejos e sentimentos do indivíduo. Por isso, o divórcio por mútuo consentimento, para Durkheim, traria efeitos nefastos “sobre o indivíduo, sobre a instituição do casamento, sobre a família e a sociedade em geral” e opunha-se a isso. Segundo ele, era fundamental o cumprimento da lei ao ponto de achar que esta não pode ser quebrada pelo simples facto de os membros do casal quererem romper com o casamento sem que houvesse uma razão muito forte para tal. E esse motivo tinha de ter a aprovação do Estado, através do juiz, pois as razões para o divórcio tinham de ser fundamentadas na lei.

Durkheim argumentava também que o divórcio não aumentaria a felicidade dos indivíduos em causa e, além disso, aumentaria os casos de suicídio, baseando-se num estudo que fez sobre o suicídio.

Mesmo havendo algumas vozes discordantes e a favor da reforma nas leis do divórcio, Durkheim continuava a argumentar que isso levaria à diminuição do respeito pela lei.

Bibliografia

BYNDER, Herbert; "Émile Durkheim and the Sociology of Family" in Journal of Marriage and Family, vol.31, nº3, Agosto 1969; pp. 527-533 acedido através de http://www.jstor.org/stable/349776

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Durkheim

http://febwar.blogspot.com/2010/04/durkheim-e-as-relacoes-da-sociedade-com.html

Herbert Spencer e o Espectro de Comte

Síntese do Conteúdo

O artigo “Herbert Spencer e o Espectro de Comte” refere a tentativa de Spencer de se libertar da associação que lhe era feita das ideias de Auguste Comte e, sobretudo, do Positivismo. Spencer preocupava-se em descredibilizar Comte e a sua hierarquização das Ciências. Sentindo-se criticado pelos positivistas e comtistas, Spencer fez uma lista das áreas de acordo com Comte mas elaborou uma lista muito maior e mais detalhada das diferenças.

“Spencer falava da filosofia da Comte sem ter um conhecimento aprofundado das suas obras; apropriou-se de vários termos de Comte e o seu pensamento foi directamente influenciado pela controvérsia”.

Comentário crítico

Auguste Comte e Herbert Spencer foram dois dos primeiros teóricos da sociologia. Ambos estudaram a sociedade e os vários modos das pessoas interagirem na sociedade. Tanto um como o outro tinham em comum algumas questões acerca da ciência da sociedade mas divergiam nos pontos de vista da função da sociologia.

Para Comte era fundamental entender o momento presente para compreender a evolução do espírito humano e este, no seu esforço para explicar o universo, tinha passado por três estados: teológico, metafísico e positivo. A descoberta das leis de organização social humana para reconstruir a sociedade de uma forma mais humana era igualmente importante.

Para Spencer era necessário demonstrar que a evolução social não dependia da vontade humana e argumentava que as leis da organização humana poderiam ser desenvolvidas concentrando-se no crescimento e na complexidade da sociedade, visto que essas causas criavam pressões para o aumento da interdependência e troca entre as pessoas e organização de uma sociedade e o aumento do uso do poder para regular, controlar e coordenar as actividades desses membros e unidades organizacionais. Fundou, assim, uma teoria sociológica conhecida como funcionalismo, em que a função de uma estrutura social na manutenção da sociedade era destacada.

Segundo Comte, as ciências classificam-se de acordo com a ordem crescente de complexidade. Da Matemática à Sociologia (passando pela Astronomia, Física, Química e Biologia), a ordem é do mais simples ao mais complexo, do mais abstracto ao mais concreto e com uma proximidade crescente em relação ao homem; as ciências mais complexas e mais concretas dependem das mais abstractas.

A classificação de Spencer, ao contrário da abordagem evolutiva de Comte, representa uma lógica baseada na abstracção (maior ou menor grau de abstracção), classificando as ciências em três grupos: as ciências abstractas que estudam a forma dos fenómenos (Lógica e Matemática); as ciências concreto-abstractas que estudam os próprios fenómenos nos seus elementos (Mecânica, Física e Química) e as ciências concretas que estudam os próprios fenómenos na sua totalidade (Astronomia, Geologia, Biologia, Psicologia e Sociologia).

“Enquanto Comte se propõe interpretar a génese do nosso conhecimento da natureza – subjectivo –, Spencer propõe a interpretação da génese dos fenómenos que constituem a natureza – objectivo”. Esta era a explicação de Spencer para se distanciar da acusação que lhe faziam de ser um positivista e de seguir as ideias de Comte.

Ambos acreditavam que a relação do homem com a sociedade podia ser estudada cientificamente.

Para Comte, a Sociologia é o estudo positivo das leis próprias aos fenómenos sociais e, em termos de organização interna, divide-a em Estática Social (estuda cada um dos elementos das estruturas sociais e as suas relações em determinado momento do tempo) e Dinâmica Social (estuda a forma como esses elementos evoluem, estando sempre em interligação).

Para Spencer, a Sociologia é um instrumento dinâmico ao serviço da reforma social; considerava a evolução natural como chave de toda a realidade. Para ele não existiam diferenças metodológicas entre o estudo da natureza e o estudo da sociedade. O princípio que unia os dois campos era o da evolução cujas leis, propostas pela Biologia, eram universalmente aceites; os factos específicos do funcionamento das sociedades estão, por isso, sujeitos à lei geral da natureza. Spencer compara a sociedade a um organismo biológico onde se passa de um estágio primitivo, com uma estrutura simples e homogénea, a estágios progressivamente mais complexos e heterogéneos (de pequenas sociedades sem qualquer organização política e de reduzida divisão de trabalho, as sociedades tornam-se mais complexas onde a autoridade política se torna organizada, aparecendo várias funções económicas e sociais e exigindo maior divisão de trabalho.

Bibliografia

EISEN, SYDNEY, Herbert Spencer and the Spectre of Comte

http://www.oppapers.com/essays/Comte-Vs-Spencer/51907
http://www.webartigos.com/articles/23914/1/A-SOCIOLOGIA-E-AS-TEORIAS-SOCIOLOGICAS-/pagina1.html#ixzz15LnhnKq7

http://www.airtonjo.com/socio_antropologico03.htm

http://www.infopedia.pt/$herbert-spencer

FAMÍLIA, TRABALHO, IDENTIDADE DE GÉNERO

Questão Tratada e Posição do Autor/a

“A representação da identidade feminina, o lugar atribuído à mulher na família e no trabalho, as relações de géneros e as relações de poder.”[1]

Segundo a Autora “As dicotomias começam a ser abaladas e as fronteiras atravessadas. (…) pouco a pouco estão sendo flexibilizadas e novas posições de sujeito estão sendo construídas, tanto pelas mulheres como pelos homens. (…) soluções vêm sendo produzidas e é indiscutível que temos um novo tipo de relacionamento entre os géneros.”[2]

Ideias Principais

- “Identidade estratégica e posicional na medida em que não compreende o sujeito como unidade-identidade, mas sim dentro do contexto no qual ele é promovido e articulado”.[3]

- “… redistribuição de papéis que subverte a norma tradicional de mulher – mãe – dona de casa.”[4]

- “A afirmação de identidade implica sempre a demarcação e a negação do seu oposto, que é constituído como sua diferença.”[5]

- “Á medida que a mulher foi desbravando novos caminhos, foi também conquistando uma liderança maior, tanto no mercado de trabalho quanto em outras áreas.”[6]

- “Na actualidade, a identidade feminina não é constituída apenas pelos papéis familiares (…) é o superinvestimento feminino nos papéis sociais da vida profissional e certo sentimento de rejeição aos papéis familiares.”[7]

- “Apesar do crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho (…) inúmeros preconceitos ainda existentes no ambiente de trabalho”.[8]

- “Receber educação abriu-lhe as portas para a possibilidade de crescimento profissional o que significou o início da sua independência financeira, (…) emocional”. “A entrada no mercado de trabalho proporciona à mulher o direito de ser sujeito de si mesma (…) e a investir, pela primeira vez, em territórios até então masculinos, ocasionando a sensação de estar havendo uma reviravolta na definição dos géneros sexuais.”[9]

Termos/Conceitos

- Sexo - Define as diferenças biológicas e fisiológicas entre homens e mulheres.

- One-sex modelmodelo de sexo único

- Two-sex-modelDimorfismo sexual: quando há ocorrência de indivíduos do sexo masculino e feminino com características físicas não sexuais marcadamente diferentes.

- Dimorfismo radical

  • Diferença radicalmente diferenciada.
  • Separação entre hetero, homo e bissexual.
  • Naturalização da diferença.

- Género - define a masculinidade ou feminilidade convencionadas socialmente. Refere-se à construção cultural das características masculinas e femininas.

- Família – “Elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado”.[10]

– “Duas ou mais pessoas que se consideram como tal e que assumem obrigações, funções e responsabilidades geralmente essenciais para a vida familiar” (Barker, 1991, p.80).[11]

- Identidade de género – modo como cada um de nós se vê: como homem (masculino) ou como mulher (feminino).

- Trabalho –“ Realização de tarefas que envolvem o dispêndio de esforço mental e físico, com o objectivo de produzir bens e serviços para satisfazer necessidades humanas” (Giddens, 1997,p. 578).[12]

- Dualismo – estabelecer pares (homem/mulher, razão/emoção, público/privado).

Comentário Crítico

Este artigo inicia com uma exposição sobre as categorias de homem e mulher e de masculino e feminino, que são conceitos diferentes e reflecte sobre a distinção dos conceitos de sexo e de género ao longo da história.

A mulher era considerada inferior ao homem em todos os aspectos. Mas com o surgimento da igualdade de direitos, começou-se a distinguir o homem da mulher mas apenas no aspecto biológico, continuando a ser considerada inferior ao homem em todos os seus aspectos, como que o prolongamento do homem; o homem era o ser perfeito.

A mulher, durante muito tempo, foi considerada uma mera reprodutora da espécie humana, sendo remetida para o seu lugar doméstico: ficar em casa a cuidar do marido, dos filhos e das lides domésticas. Ao homem cabia o papel de trabalhador, de ser social. A mulher não tinha vontade própria, não tinha sentimentos e, mesmo a nível sexual, era impensável, quase proibitivo, sentir prazer no acto sexual.

Com o acesso à educação, a mulher começa a sentir-se pessoa com modos de estar, agir e pensar próprios, começa a ter um maior estatuto nas relações entre os géneros, de tal modo que deixou de haver fundamentos para lhe negar a igualdade de direitos e de oportunidades que o homem tinha.

Actualmente, na maioria dos países, principalmente nos chamados países ocidentais, a mulher emancipou-se e tem o seu lugar próprio também “fora de casa”. Integrou-se no mercado de trabalho, evoluiu nos seus estudos e já não vive em função da família (primeiro os pais, depois o marido e por fim os filhos). Tem ambições próprias, trabalha não apenas para complementar o orçamento familiar mas para sua realização pessoal e profissional.

Apesar desta evolução da mulher na sociedade ainda está sujeita a muitos estigmas:

- A responsabilidade das tarefas domésticas é quase exclusivamente assumida pelas mulheres, mesmo quando tem um trabalho remunerado.

- O facto de a mulher desempenhar simultaneamente o pape de esposa, mãe e profissional implica conflito e a contradição.

- Quando num casal a mulher tem uma remuneração ou um estatuto profissional superior ao do homem, este sente-se inferior.

- O apoio financeiro do homem na família é uma responsabilidade, enquanto o da mulher é visto como “útil”.

- Quando uma mulher “sobe” na sua carreira profissional suspeita-se de o ter feito através da sua identidade sexual.

Há ainda um caminho longo a fazer a nível de mudança de mentalidades. Homem e mulher têm de estabelecer uma relação de igualdade e de respeito, quer seja na relação de casal, profissional ou social. É necessário que ambos acordem para essa necessidade de quebrar paradigmas e que experimentem novas formas de comportamento.

“Enquanto o homem e a mulher não se reconhecerem como semelhantes, enquanto não se respeitarem como pessoas em que, do ponto de vista social, política e económico, não há a menor diferença, os seres humanos estarão condenados a não verem o que têm de melhor: a sua liberdade.” (Simone de Beauvoir)



[1] Silva, T. C. M, Amazonas, M. C. L. A e Vieira, L. L. F (Jan./Mar. 2010), “Psicologia em Estudo: Família, Trabalho, Identidades do Género”, Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica, p,151.

[2] Ob. Cit., p. 158

[3] Ob. Cit., p.154

[4] Ob. Cit., p.155

[5] Ob. Cit., p.156

[6] Ob. Cit., p.156

[7] Ob. Cit., p.156

[8] Ob. Cit., p.157

[9] Ob. Cit., p.157

[10] Declaração Universal dos Direitos do Homem, Artigo 16, 3

[11] http://cursosefa.do.sapo.pt/pdf/familia_ip.pdf

[12] www.solidariedade.pt/UserFiles/File/conceito-trabalho-dm.doc